Governo no Futuro — Socialismo Estatal e Capitalismo Estatal

Algumas das ideias principais do livro “Government in the Future”, de Noam Chomsky no que concerne ao Socialismo Estatal e Capitalismo Estatal.

 

Para começar, é óbvio que podemos distinguir dois sistemas de poder, o sistema político e o sistema económico. O primeiro consiste no princípio de representantes eleitos do povo que definem a política pública. O segundo por princípio é um sistema de poder privado, um sistema de impérios privados, que está livre do controlo público, excepto de maneira remota e de maneiras indirectas tal como até a nobreza feudal ou uma ditadura totalitária deve estar atenta à vontade popular.

A primeira é que de uma maneira subtil uma forma de molde da mente é induzida numa grande massa da população que é sujeita a um decreto arbitrário vindo de cima. Penso que isto tem um enorme efeito no carácter geral da cultura. O efeito é a crença que temos que obedecer a ditames e anuir perante a autoridade.

E um terceiro factor é que dentro da estreita gama de questões a que estão sujeitas, por princípio, na construção de decisões democráticas, os centros de poder privados exercem, claro está, uma influencia excessivamente forte de maneiras extremamente óbvias — pelo controlo dos media, pelo controlo de organizações políticas ou, de facto, por maneiras simples e directas, tais como fornecendo pessoal de topo ao próprio sistema parlamentário, como obviamente o fazem. Richard Barnet, no seu recente estudo sobre os 400 decisores do sistema de segurança nacional do pós guerra, reporta que a maioria, e cito agora, “vieram de suites executivas e de escritórios de advogados que estão, entre si, à distancia de um grito, em 15 bairros em 5 das maiores cidades.” E todos os outros estudos mostram o mesmo.

De forma curta, em uma democracia capitalista, na melhor das hipóteses, o sistema democrático funciona dentro de uma estreita margem e ainda dentro desta estreita margem o seu funcionamento é enormemente tendencial pela concentração de poder privado e pelo modo de pensamento autoritário e passivo que é induzido pelas instituições autocráticas como as indústrias, por exemplo. É um lugar-comum, mas um que deve estar sempre a ser realçado, que capitalismo e democracia são, em última análise, bastante incompatíveis.

A decisão de escalar a guerra no Vietname em Fevereiro de 1965, num desrespeito cínico pela vontade expressada pelo eleitorado. Este incidente revela, penso, com uma claridade perfeita, o papel do público nas decisões sobre paz e guerra, o papel do público em decisões sobre as linhas principais da política pública em geral. E também sugere a irrelevância da política eleitoral sobre as decisões principais das políticas nacionais.
Infelizmente não consegues correr com os canalhas de lá para fora, porque nunca sequer votaste neles. Os executivos e advogados das empresas e por aí adiante, que enchem de pessoal o executivo, crescentemente assistida por uma classe mandarina de base universitária, que se mantém no poder não interessando a quem eleges.

Portanto a razão deve ser identificada com a centralização das decisões no topo nas mãos da gerência. O envolvimento popular nas decisões é uma ameaça à liberdade, uma violação da razão. A razão está inserida em instituições autocráticas geridas firmemente. Fortalecendo estas instituições, nas quais cada homem pode funcionar mais eficientemente, é, nas suas palavras, “a grande aventura humana dos nossos tempos.”

O estudo conclui que: “uma pequena elite industrial de empresas gigantescas de conglomerados está a engolir as empresas norte-americanas e em grande medida a destruir a livre-iniciativa competitiva.”

George Ball explicou que o projecto de construir uma economia mundial integrada, dominada pelo capital norte-americano, ou por outras palavras um império, não é uma quimera, mas uma previsão racional.

Na sua forma moderna, a empresa multinacional, ou uma com operações e mercados pelo mundo, é um distinto projecto norte-americano. Através de tais empresas tem sido possível pela primeira vez usar os recursos do mundo com a máxima eficiência.

Ali definem que a ameaça principal do comunismo é a “transformação económica das potencias comunistas em maneiras que reduzem a sua vontade ou habilidade de complementar as economias industriais do Ocidente.”

A guerra ensinou-nos a lição de que a produção induzida pelo governo, numa economia cuidadosamente controlada — controlada centralmente — pode superar os efeitos da depressão.

Claro que o problema é que em uma economia capitalista há apenas um pequeno número de maneiras em que a intervenção governamental pode ocorrer. Por exemplo, não pode ser competitiva com os impérios privados, o que significa que não pode haver qualquer produção útil.

A maior parte dos gastos de produção foi destruído ou deixado nos campos de batalha da Europa ou Ásia mas com isto aumentou a demanda levando a nação para um período de prosperidade a uns níveis nunca antes vistos.

Pode ser acrescentado que a subsequente guerra fria levou a cabo a despolitização da sociedade norte-americana e criou o tipo de ambiente psicológico no qual o governo é capaz de intervir parcialmente através de políticas fiscais, parcialmente através de trabalho e serviços públicos, mas de forma massiva, claro está, através de gostos na defesa.

O governo actua como um coordenador de último recurso quando os gestores não são capazes de manter um elevando nível de procura agregada.” Tal como outro historiador económico escreveu, “os gestores mais sábios, longe de temerem a intervenção do governo na economia, vêem a nova economia como uma técnica para aumentar a viabilidade das empresas.”

“A sua forma de atrair a venda é a defesa da casa. Este é um dos grandes recursos que os políticos têm para ajustar o sistema. Se és o presidente e precisas um factor de controlo na economia, e precisas de vender este factor, não consegues vender Harlem e Wattes, mas podes vender auto-preservação, um novo ambiente. Vamos aumentar o orçamento de defesa enquanto aqueles canalhas na Rússia estejam à nossa frente. E o povo norte-americano entende isto.”

Uma vez mais quero enfatizar o papel deste sistema na guerra fria como técnica de controlo doméstico, uma técnica de desenvolvimento de um clima de paranóia e psicose em que o contribuinte estará disponível para providenciar os gigantescos e incessantes subsídios para os sectores tecnologicamente avançados da indústria norte-americana e empresas que dominam este sistema cada vez mais centralizado.

De muitas maneiras a sociedade norte-americana é de facto aberta e os valores liberais são preservados. No entanto, tal como as pessoas pobres e negras e outras minorias étnicas o sabem bem a fachada liberal é muito estreita. Mark Twain uma vez disse que: “´É pela bondade de Deus que no nosso país temos aquelas três indizíveis e preciosas coisas: Liberdade de expressão, liberdade de consciência e a prudência de nunca praticar ambas as coisas.” Aqueles a quem lhes faltar prudência podem muito bem pagar o preço.

O chamado povo, exerce uma escolha ocasional entre aqueles que Marx uma vez chamou de facções rivais e aventureiros da classe dirigente.

Descreve a moderna democracia política, favoravelmente, “como um sistema em que a decisão das questões pelo eleitorado é secundária em relação à eleição dos homens que estão para tomar as decisões. O partido político”, diz com precisão, “é um grupo cujos membros propõem agir em concerto com a luta competitiva do poder político. Se não fosse assim, seria impossível a diferentes partidos adoptar exactamente ou quase exactamente o mesmo programa.”

Esse programa, mais ou menos igual, que ambos os partidos adoptam e os indivíduos que competem pelo poder, expressam uma estreita ideologia conservadora e basicamente os interesses de um ou outro elemento na elite corporativa, com umas poucas modificações.

Estas pessoas e as instituições que representam estão com efeito no poder e os seus interesses são os interesses nacionais.

De forma concebível, os ideais clássicos liberais, tal como foram manifestados na sua forma socialista libertária, são alcançáveis. Mas se sim, apenas por um movimento revolucionário popular, enraizado em estratos amplos da população e empenhada na eliminação de instituições repressivas e autoritárias — estatais e privadas. Criar tal movimento é o desafio com que nos deparamos e que temos de alcançar se quisermos encontrar uma saída para o barbarismo contemporâneo.

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