Governo no Futuro — Socialismo Libertário e Anarquismo

Algumas das ideias principais do livro “Government in the Future”, de Noam Chomsky no que concerne ao Socialismo Libertário e Anarquismo

Para sermos anarquistas temos que ser primeiro socialistas

Todo o anarquista é socialista mas nem todos socialistas são necessariamente anarquistas. Um anarquista consistente deve opor-se à propriedade privada dos meios de produção. Tal propriedade é de facto, tal como Proudhon no seu famoso comentário afirmou, uma forma de roubo. Mas um anarquista consistente vai também se opor à produção organizada pelo governo.

O objectivo da classe trabalhadora é a libertação da exploração e este objectivo não é alcançado e não pode ser alcançado por uma nova classe dirigente e governamental que se substitui à burguesia. É apenas realizável pelos próprios trabalhadores, controlando a produção, com uma forma qualquer de conselhos de trabalhadores.”

A indústria apenas pode ser controlada e detida democraticamente pelos trabalhadores eleitos directamente das suas próprias fileiras dos comités administrativos industriais. O socialismo será fundamentalmente um sistema industrial; os seus constituintes serão de um carácter industrial. Portanto aqueles que exercem a actividade social e industrial da sociedade serão representados directamente nos conselhos locais e centrais da administração social. Desta forma os poderes de tais delegados fluirão de baixo para cima daqueles que executam o trabalho e familiarizados com as necessidades da comunidade. Quando o comité industrial central se reúne irá representar todas as fases da actividade social. Consequentemente o estado geográfico ou político será substituído pelo comité socialista administrativo industrial. O estado político ao longo da história significou o governo dos homens pelas classes dirigentes; a república do socialismo será o governo da indústria administrada em nome de toda a comunidade. A primeira significou a sujeição económica e política da maioria, e esta última significará a liberdade económica de todas. Será, portanto, uma verdadeira democracia.”

O estado deve desaparecer para ser substituído pela organização industrial no decurso da própria revolução social.

O que é mais importante que o facto de que muitos comentários similares se possam citar é que estas ideias se realizaram em acção revolucionária espontânea várias vezes. Por exemplo na Alemanha e Itália após a primeira Guerra Mundial e na Catalunha em 1936.

O comunismo de conselhos neste sentido, no sentido da longa citação que eu li, é a forma natural do socialismo revolucionário em uma sociedade industrial.

A democracia é em grande medida uma farsa quando o sistema industrial é controlado por alguma forma de elite autocrática, seja de donos, de dirigentes, tecnocratas, uma vanguarda do partido, burocracia de estado, ou o que seja. Sob estas condições de dominação autoritária, os ideais clássicos liberais, que também são referidos por Marx e Bakunine e todos os verdadeiramente revolucionários, não se podem realizar.

O homem não será, por outras palavras, livre para inquirir e criar, para desenvolver as suas próprias potencialidades ao seu máximo. O trabalhador manter-se-á um fragmento de um ser humano, uma ferramenta no processo produtivo dirigido por alguém de cima. E as ideias do socialismo revolucionário libertário, neste sentido, tem sido submergidas nas sociedades industriais no último meio século. As ideologias dominantes têm sido as do socialismo de estado e capitalismo de estado.

A erosão da mitologia da Guerra Fria, pelo menos, permite discutir algumas destas questões, e se a presente onda de repressão puder ser repelida, se a esquerda puder superar as suas tendências suicidas e crescer a partir do que alcançou na última década, o problema de como organizar a sociedade industrial em linhas verdadeiramente democráticas — com controlo democrático, tanto no local de trabalho assim como na comunidade — deveria tornar-se a questão intelectualmente dominante para aqueles que estão vivos em relação aos problemas da sociedade contemporânea.

Os anarquistas estavam convencidos de que o capitalismo e o estado devem ser juntamente destruídos.

Mas Engels, em uma carta de 1883, expressou a sua oposição a esta ideia da seguinte maneira: “Os anarquistas põem a coisa de pernas para o ar. Declaram que a revolução proletária deve começar pela eliminação da organização política do estado. Mas destruí-lo em tal momento seria destruir o único organismo cujos meios o vitorioso proletariado pode fazer valer o seu novo conquistado poder, refrear os seus adversários, desenvolver a revolução económica da sociedade sem a qual toda vitória termina em uma nova derrota e um massacre de massas de trabalhadores, semelhante aos que se verificou na comuna de Paris.

É essencial que exista um movimento revolucionário poderoso nos Estados Unidos para que seja alguma vez possível uma possibilidade razoável de cambio social democrático radical de algum tipo em algum lugar do mundo capitalista. E comentários comparáveis, penso, também se aplicam ao império Russo.

É uma verdade elementar do Marxismo que a vitória do socialismo requer o esforço conjunto dos trabalhadores em um variado número de países avançados. No mínimo requer que um grande número de centros do mundo imperialista sejam impedidos, por pressões domésticas, de fazer intervenções contra-revolucionárias. Apenas tais possibilidades vão permitir a qualquer revolução depor as suas próprias instituições estatais coercivas à medida que tenta trazer a economia para o seu controlo democrático directo.”

Ambos estão de acordo de que as funções do estado são repressivas e que a acção do estado deve ser limitada. O socialismo libertário vai ao ponto de insistir de que o poder do estado, deve ser eliminado em favor da organização democrática da sociedade industrial com controlo directo popular sobre todas as instituições, por aqueles que participam em elas, assim como também por aqueles que são afectados pelo trabalho de essas instituições. Portanto podemos imaginar um sistema de conselhos de trabalhadores, conselhos de consumidores, assembleias comunais, federações regionais e por aí adiante, com o tipo de representação que é directo e revogável, no sentido em que os representantes dependem e respondem directamente a um bem definido e integrado grupo social por quem falam em uma organização superior, algo obviamente muito diferente do nosso sistema de representação.

Aqueles que abandonaram a vida de homens livres não fazem nada mais que se gabar incessantemente da paz, do repouso que sentem nas suas correntes. Mas quando vejo outros a sacrificar prazeres, repouso, riqueza, poder e a própria vida pela preservação desta única vantagem que é tão desdenhada por aqueles que a perderam, quando vejo multidões inteiras de selvagens completamente desnudos, que desprezam a voluptuosidade europeia e resistem à fome, fogo, à espada e à morte para preservar apenas a sua independência, sinto que não importa aos escravos raciocinar sobre a liberdade.” Um comentário sobre o qual, talvez, possamos dar um interpretação contemporânea.

Porque não podemos chegar à maturidade da liberdade sem a termos adquirido já. Temos que ser livres para aprender como fazer uso dos nossos poderes livremente de maneira útil. As primeiras tentativas serão certamente brutais e irão levar a uma situação mais dolorosa e perigosa do que a condição anterior, sob o domínio e também da protecção de uma autoridade exterior. No entanto, podemos alcançar a razão apenas através das nossas próprias experiências e devemos ser livres para levá-las a cabo. Aceitar o princípio de que a liberdade não vale nada para aqueles sob controlo e que cada um tem o direito de recusá-la para sempre é um infracção ao próprio direito de Deus, que criou o homem para ser livre.”

Ao mesmo tempo, nenhuma pessoa com conhecimento ou humanismo irá condenar muito rapidamente a violência que frequentemente ocorre quando massas subjugadas durante imenso tempo se levantam contra os seus opressores ou tomam os primeiros passos em direcção à liberdade e à reconstrução social.

“Nada promove esta justiça para a liberdade como a própria liberdade. Esta liberdade talvez não seja reconhecida por aqueles que tão frequentemente usam esta injustiça como desculpa para a contínua opressão, mas parece-me seguir inquestionavelmente da própria natureza do homem. A incapacidade para a liberdade pode apenas surgir de uma falta de poder moral e intelectual. Aumentar este poder é a única maneira de abastecer o querer, mas para fazê-lo pressupõe a liberdade que desperta actividade espontânea. Aqueles que não compreendem isto podem, justificadamente, ser suspeitos de não entender a natureza humana e desejar fazer dos homens máquinas.”

Apenas a activa participação das massas no auto-governo e reconstrução social pode trazer a transformação espiritual completa das massas degradadas por séculos do domínio de classe burguesa, porque apenas a sua experiência criativa e acção espontânea pode resolver a miríade de problemas de criar uma sociedade socialista libertária.

“Não mais o agente dos proprietários busca maximizar os lucros do investimento, a administração se vê responsável perante os accionistas, empregados, clientes, público em geral e provavelmente a própria firma como uma instituição. Não há exibição de avarícia ou avidez de ganhar, não há tentativas de apertar nos trabalhadores e na comunidade pelo menos na parte dos custos sociais da empresa.”

Aqueles que incitam os homens a submeter-se à governação destas benevolentes autocracias podem, penso, ser justamente acusados de desejar transformar os homens em máquinas.

Por exemplo, alguns dizem que a gestão centralizada é um imperativo tecnológico, mas penso que o argumento é extremamente débil quando o examinamos.

Em qualquer dos casos, é um pouco difícil levar a sério argumentos sobre a eficiência em uma sociedade que devota enormes recursos para o lixo e destruição. Como todos sabem, o próprio conceito de eficiência está encharcado de ideologia. Maximização de mercadorias dificilmente pode ser considerada a única medida para uma existência decente.

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