Uma Nova Esperança

Foi ignorado, foi ridicularizado, foi humilhado, lançaram-lhe uma guerra sem quartel, até de dentro do seu partido, mas acima de tudo desde a imprensa auto-denominada livre, mas hoje acabaram todos rendidos ao óbvio — Corbyn, contra todas as expectativas, ganha batalha após batalha e a sociedade, apesar de toda a propaganda, não é tão estúpida quanto se possa pensar e, portanto, ao contrário do que as elites nos querem fazer crer, continua a haver lugar para a social democracia no nosso mundo.

A luta é feroz, é desigual, acabamos com a impressão de que só há um caminho, de que o povo é demasiado estúpido e que vai aceitar tudo o que as elites intelectuais nos debitam, mas não é assim! Há espaço para penetrar junto de pessoas que afinal não são tão tontas quanto os média nos levam a pensar que sejam. Há espaço para a resistência! E Corbyn foi audaz, teve a coragem de se desviar da narrativa dominante propagandeada, escutar todas as barbaridades que sabia que lhe iam dirigir, aguentar todas as partidas e jogos sujos que lhe puseram no caminho, mas mesmo com tudo isso tem sabido colher frutos.

Não, Corbyn não ganhou, mas conseguiu o que ninguém esperava. A sua história, faz recordar a de Rocky Balboa — Apollo, campeão do mundo em título, decide fazer um combate com um desconhecido apenas para entretenimento das massas e reconhecimento e no fim saiu-lhe um lutador que nunca desistiu e que lhe fez frente até ao fim, chocando o mundo. Jeremy Corbyn conseguiu algo semelhante ontem à noite. Vinha com projecções que lhe davam um resultado catastrófico, e por isso May decidiu-se pela convocação destas, inesperadas, eleições, esperando conseguir fazer desaparecer a ameaça de Corbyn e reforçar o seu poder e agora — que irónico! — estamos todos à espera da sua demissão. Uma coisa é certa, o poder está abalado. Como se vai sair disto? As sociedades estão divididas… Sanders provou que nos Estados Unidos também há caminho. O Podemos em Espanha, o Syriza na Grécia, Melenchon em França, a esquerda em Portugal.

O que Corbyn promete é algo que abala o sistema de cima abaixo.  Escrevia eu, em Setembro de 2015, sobre o que este defendia:

“A saber: contra as soluções militares em favor de soluções políticas; saída do Reino Unido da OTAN e diálogo com todos as forças, mesmo aquelas que são consideradas terroristas pelo mundo ocidental; acabar com a austeridade; taxar com mais incidência os ricos e proteger os mais desfavorecidos; um salário máximo; nacionalizar o Royal Bank of Scotland; criar um sistema nacional de educação — um sistema de educação contínua para todos que vai desde a infância até à idade adulta. Nesse sentido, está claro que todas as propinas, mesmo nas universidades, serão abolidas. Sector energético nacionalizado; controlo das rendas das casas em cidades como Londres. Ah, e é republicano e não canta o hino monárquico, o que já provocou um enorme escândalo social — falta de patriotismo está para as nossas sociedades modernas ocidentais como a falta de fé na religião oficial estava para os séculos passados.”

Como é que não vão odiar Corbyn? Está aqui um genuíno defensor das causas populares contra o que tem sido o poder desde que se conhece o poder. Nada se ganhou, apenas permite a continuação de uma resistência e da esperança.

“Há forças poderosas nos Estados Unidos, assim como em todos lados, que irão trabalhar para manter a sua riqueza e poder, seja lá qual for o custo humano. E irão ter sucesso, se não houver uma oposição de um público empenhado e informado. Pode ser feito. Foi feito durante a Guerra do Vietname e está a ser feito hoje. Isto é uma luta sem fim e continuará assim, pelo menos até que se façam alterações revolucionárias nas super-potências. Em relação à defesa e extensão da democracia, também é uma luta sem fim. O intelectual anarquista, Rudolf Rocker, escreveu um dia que “os direitos políticos não têm origem  nos parlamentos: são sim forçados ao parlamento desde fora… Não existem porque foram legalmente delineados num pedaço de papel, mas apenas quando se tornam hábitos encravados nas pessoas e quando qualquer tentativa de os reduzir seja repelido pela resistência violenta da população.” Há muita verdade nisto.”

Na minha opinião, a luta contra a opressão e injustiça nunca irá acabar, mas continuará a assumir novas formas e a impor novas exigências. Isto não é uma razão para pessimismo, mas para um comprometimento honesto e esforços francos na defesa da liberdade e justiça.
NOAM CHOMSKY

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